DIÁRIO DO PADRE ANTONIO BORGES DE SOUSA - I
Dom, 03 de Junho de 2012 23:06
 altComemorando o primeiro aniversário da morte trágica do Padre ANTONIO BORGES DE SOUZA (1921-2011), estamos começando a publicar um diário encontrado entre os seus papéis. Vemos ali o trabalho que Deus realizou neste santo religioso. Vemos como ele se sentia plenamente filho de Santo Afonso de Ligório. É um outro tipo de diário, uma verdadeira matéria para nossa meditação e edificação!! O diário começa em junho de 2002:
 Ponho-me em comunhão com meus irmãos e sinto necessidade de fazê-lo. Minha vida foi tão atropelada e complicada, que o tempo passou e os meses correram, quase sem eu perceber. Preparo-me para a Mariápolis (encontro aberto da Obra de Maria) em Brasília, como meio de me refazer! Deus está sempre presente, se bem que não percebo progresso satisfatório. Renovo o propósito de fazer do Redentor crucificado, meu único bem. Demorei um bom tempo neste exercício, aproveitando as contínuas e mínimas ocasiões. Foi ótimo! Neste mês, tomei a resolução de multiplicar os atos de atenção e amor. Valeram-me uns gestos de desprendimento.   
 
Março de 2003
 
Felizmente, aqui estou, novamente, com meus irmãos consagrados. O Cristo crucificado me visitou de diversas maneiras. Isto me fez chegar a um amadurecimento muito grande no caminho traçado pelo evangelho e pela unidade. Dei um salto de qualidade na confiança e no abandono nas mãos do Pai. A minha confiança na misericórdia inesgotável de Deus, tornou-se grande. Isso eu queria passar a todos. A minha jaculatória constante é esta: “Meu Deus, eu vos amo e em vós me abandono!” Continuo firme, unido a todos. Espero que estejam também unidos a mim!
 Abril de 2003
Impressionou-me a expressão de Chiara, quando ela disse na explicação da Palavra de Vida (uma frase bíblica) do mês de março: “em cada palavra Jesus se doa inteiramente, é ele mesmo quem vem viver em nós...”. Belo tipo de comunhão espiritual! Fiz a experiência de deixar que ela penetrasse em mim, sempre quando a encontrava, em leituras, na reza do breviário. Rezando o terço, em particular, depois de cada mistério o interrompia para ler e meditar uma de suas palavras. Em companhia de Maria, a doação aumentava de proporções. Aprendi a valorizar mais a leitura da Bíblia. Queria me abastecer com mais freqüência deste manancial esplêndido, que me mergulhava na vida eterna. Naturalmente, este exercício teve reflexos positivos nas minhas atitudes. Assim, Deus-amor vai sempre me empolgando e me animando.
 
Agosto de 2003
Participei da Mariápolis em Brasília, do começo ao fim, com muito proveito. Muitas coisas maravilhosas, novas e velhas, emergiram de baixo das cinzas. // Um jovem seminarista da diocese de Rubiataba me pediu para passar com ele dois dias de oração e reflexão. Queria se preparar melhor para a ordenação diaconal. Retiramo-nos em uma fazenda. Foi maravilhoso. Fizemos uma grande unidade e Jesus em nosso meio atuou. Valeu como um dos melhores retiros. Maria e a Eucaristia foram os pontos mais focalizados. E nossa Senhora não deixou por menos. Expressão que ele usou: “Aprofundei-me mais nestes dois dias do que em todo o tempo de seminário”.
 
Setembro de 2003
Esforço-me para viver a Palavra. Nela penso com freqüência, dela falo sempre que é oportuno. No entanto, sinto minhas limitações. Falta-me muito tempo para chegar à unidade com todos. O egoísmo e o individualismo fazem-me guerra. Nos meus trabalhos e encargos, sinto uma maior aproximação com o meu superior. Sempre me comunico com ele, colocando-o a par de tudo e pedindo sua aprovação. O milagre produzido pela Palavra se manifesta na realização da construção da igreja, que promoverá a glorificação do servo de Deus, Pe. Pelágio cssr, a qual se encontra na reta final.
 
Novembro de 2003
Nas minhas atividades, mil dificuldades se apresentam constantemente. Problemas a toda hora... Isto me obriga a exercitar-me muito na confiança e abandono nas mãos do PAI; muitas vezes visito-o no seu Santuário, vizinho do local onde moro. Santa Terezinha também apareceu neste mês, instruindo-me na sua pequena trilha da Infância Espiritual. Preguei um Tríduo e Novena na igreja de uma comunidade, construída em sua honra. Falei muito na pequenez na vida espiritual. Isso me faz viver melhor o clima, que a Palavra de Vida suscitou neste mês de outubro. Aprendi a rezar pedindo a Santinha do Carmelo que me instrua nesta ciência, lembrando-me que ela prometeu conceder esta graça aos seus devotos.
Abril de 2004
Um dia celebrei a missa bem tarde; alguém me pediu de levá-lo num lugar um tanto distante e difícil de chegar. Atendi, mas internamente um tanto contrariado. Depois me penitenciei e ofereci ao Redentor na cruz esta minha fraqueza, abraçando-o. Queria deitar mais cedo. No dia seguinte, meu horário de levantar seria antecipado. A lição valeu... Chegando em casa, tive que fazer outro favor, roubando-me mais tempo de sono. Estava preparado. Fiz o favor com generosidade, sem reclamação.
 
Maio de 2004
A Palavra de Deus me fez ficar mais atento em servir o próximo, quando me procuraram para algum aconselhamento, uma confissão, uma benção... Já cansado, reuni todas as minhas forças para conseguir com ânimo generoso o atendimento de confissões. Querendo estar em comunhão e pedindo unidade de todos, tenho a grata satisfação em comunicar, que a Igreja que recolherá os restos mortais do Pe. Pelágio se encontra na sua finalização e vai ser inaugurada na Festa de Pentecostes, com um tríduo preparatório. É escusado dizer, que aqui fica o convite de uma presença, pelo menos espiritualmente, agradecendo e pedindo a proteção do Alto.
Agosto de 2004
Deus é Pai. Que Deus é Pai, é uma característica forte, que muito se evidencia nesta cidade em que resido, cidade do Santuário do Divino Pai Eterno. Acostumei-me a visitá-lo, sempre que se me apresenta oportunidade, rezando devagarzinho o “Pai Nosso...”. E ele se revelou verdadeiro Pai amoroso. Depois de 40 anos de trabalho intenso, lutando contra mil empecilhos, pude participar da inauguração da igreja do SS. Redentor, recolhendo os despojos mortais do servo de Deus, Pe. Pelágio, e trabalhando pela sua beatificação. Senti a mão de Deus em tudo. A obra é simplesmente Dele... A festa foi esplêndida. Uma bela coroação de todo um trabalho. Impossível não perceber a presença de Deus. A igreja é piedosa, aconchegante, harmoniosa, como tudo que é de Maria. Deus é Pai! Continuo na mão deste Pai, a seu inteiro dispor!
Novembro de 2004
A meditação constante dos mistérios do Rosário; a Encarnação, Paixão e Morte de N. S. Jesus Cristo; a Eucaristia saboreada nas visitas ao SS. Sacramento e na celebração da Santa Missa, nunca jamais descurada, tornam-se alimento fecundo e constante da minha fé. Nas pregações procuro transmitir estas verdades e certeza. Mas, como diz Chiara Lubich, esta fé é um dom sobrenatural e pode sofrer altos e baixos na nossa vida. A inconstância do homem velho, os sentimentos incontidos, o coração de pedra, nem sempre acompanham estes vôos do espírito. Em meio à secura e aridez, como Santa Terezinha, procurei muitas vezes repetir atos de fé, amor e confiança. Nas provações, minhas orações foram as palavras de Jó: “Mesmo se Deus me matar, nEle eu confio!...”. Se a virtude se fortalece na fraqueza, como diz S. Paulo, espero ter obtido este resultado.
Março de 2005
Procuro sempre me envolver com a luz do unidade. Esta, com a graça de Deus, se acha gravada profundamente no meu coração. Há, porém, momentos de luz, outros de sombras... Vejo-me atrasado, cheio de defeitos e limitações. Quero pensar mais nos outros do que em mim. O egoísmo interfere. Quando vejo, meus interesses estão na frente. O recurso é Jesus crucificado. Com Ele, ofereço a Deus o meu nada. E Deus faz brilhar nestas sombras, a confiança ilimitada, declarada por Santa Terezinha. Ela dizia: “Nunca é demais confiar em Deus”. Houve uma grande reunião do Vicariato. Todos os tipos se apresentaram. Mas, logo depois, a graça em mim, fazia cair o manto da misericórdia do Pai, que não tem barreiras e a todos envolvia. Amava, através desta misericórdia e a todos aceitava igualmente. O amor de Deus não cessa. Para cada um, a hora da graça é diferente e produz verdadeiras surpresas.
 
Maio de 2005
Vivendo a Palavra, procurei rezar mais, permanecer mais tempo diante do SS. Sacramento, neste ano a Ele dedicado. Ando caprichando mais nas Celebrações Eucarísticas, promovendo na Igreja do Servo de Deus, Pe. Pelágio, contínuas e fervorosas Hora-Santas, com enorme proveito espiritual. Repito muitas pequenas visitas a Ele e quero, verdadeiramente, que tudo em mim e nas minhas atividades resplandeça o amor de Deus. Senti-me feliz em fazer uma obra de caridade, visitando um doente, fora do âmbito de minhas atividades, em Aparecida de Goiânia, a pedido de um amigo. Para isso, empreguei uma boa parte do dia, com tranqüilidade, empenho e paciência. Esforço-me por atrair a misericórdia de Jesus, que tudo vê com benignidade e desculpas, como na cruz com os carrascos. Tento imitar o Pai do céu.
 
Junho de 2005
Não quero deixar passar as oportunidades de fazer atos de bondade, com colegas e empregados. À noite, apareceu na igreja uma mulher profundamente abatida e chorosa, pelo motivo de que o irmão tinha sofrido um desastre de carro, que teve como resultado uma morte e, logo em seguida, sua prisão. Consolei-a como pude e após as cerimônias, no intuito de amar até o fim, levei-a para sua casa, pois morava longe e procurei visitar o irmão na cadeia. Não foi possível à noite. Com um pouco de trabalho consegui visitá-lo no dia seguinte. Nesta altura, o irmão foi liberado; rezei com a família, em sua casa, com a finalidade de agradecer a Deus. Despertou-me a lembrança de que muita gente sofre da mesma maneira. Não podendo dar-lhe ajuda material, comecei a incluir tais sofredores anônimos nas minhas orações, quando faço esses atos de misericórdia espirituais. Assim, onde eu não posso chegar, chegam as minhas orações.
Julho de 2005
Vivo numa comunidade que serve o Santuário do Divino Pai Eterno, em Trindade, Goiás. Somos 10 confrades. Apenas 2 idosos. Eu e mais um. Os demais são padres mais jovens e estudantes. Procuro dar a maior atenção a todos e aceitá-los como são, levado pelo impulso de viver a união. Sinto que sou correspondido. Todos me estimam. Disto mais me convenci ao inicio da Novena para a Festa do Divino Pai Eterno. Sofri uma gripe forte. Com isso, fui alvo de muitas atenções e preocupações, obrigando-me a certos tratamentos e cuidados. A recuperação foi rápida e total. Privado de atividades inalienáveis abracei as dores, vendo nelas o Redentor . Infelizmente minha presença na Mariápolis (encontro aberto da Obra de Maria, neste mês, permanece um ponto de interrogação. Quero ficar em unidade, oferecendo meus trabalhos e orações. Quero multiplicar os atos de bondade.
Agosto de 2005
A Palavra de Vida veio de propósito para me ajudar! Encontro-me em uma situação difícil, como responsável da igreja do SS. Redentor, recém construída, que contém os restos mortais do Servo de Deus, Pe. Pelagio cssr e deve promover a sua glorificação. Os planos a serem executados são grandes: evangelização, incentivo, num ambiente abandonado e árido, notáveis obras sociais... Constato minha incapacidade e extrema fragilidade. Como Chiara, fundadora dos focolares, sugere, devo deixar-me guiar pela certeza inabalável do Amor de Deus, diante da ameaça de dúvidas e incertezas. Devo me lançar nos braços do Pai, que me ama e a Ele me abandonar plenamente. Faço isso, várias vezes, nas meditações, diante do Santíssimo, nas orações à Nossa Senhora. Sinto-me confortado e me lanço para frente.
Fevereiro de 2006
Ainda sob o impulso do retiro para religiosos e consagrados, de que participei em janeiro, vivo atraído pela conquista da UNIDADE e de JESUS CRUCIFICADO. É o assunto das minhas orações, já que sem a graça de Deus nada podemos. Nas pequenas vezes, que não faltam, nas freqüentes limitações, com as quais me deparo, o Crucificado é meu refúgio e lenitivo. Que ele seja TUDO na minha vida, é o que ardentemente desejo. Sem querer, causei um desgosto a uma Irmã, companheira de meus trabalhos. Fiquei perturbado! O que fazer? Ganhei um belo pão. À noite, depois da Missa, na sacristia, ofereci-o à Irmã, dizendo: “Ganhei isso e pensei em passá-lo a alguém, de quem gosto. Lembrei-me da senhora. Leve-o para comer com suas companheiras de comunidade”. A Irmã me lançou um olhar com um belo sorriso. Mais contente ainda fiquei eu, no fundo do coração.
Abril de 2006
A Palavra de Vida deste mês me deu boas inspirações para a preparação de meus sermões. Mais do que ler ou estudar, é vivendo a Palavra que se chega à verdade, à luz, ao Cristo. Este foi o meu propósito eficaz. Com este mesmo empenho venci uma dificuldade tranqüilamente. Foram preparados na Igreja, onde trabalho, uns adultos para a primeira comunhão. Como eles não tinham sido crismados, a Irmã se comunicou com o vigário da paróquia e marcaram a crisma no mesmo dia da primeira comunhão. O padre, que também é vigário episcopal, celebraria a cerimônia. Pensei: não fica bem realizar os dois sacramentos simultaneamente. Um obscurece o outro. E a minha participação num evento tão importante e decisivo na continuidade e perseverança, como a primeira Eucaristia, onde fica? Ao mesmo tempo lembrei-me do princípio estabelecido por Chiara. Lubich: “É melhor o menos perfeito na unidade, do que o mais perfeito na desarmonia”. Cedi. Logo depois tive uma inspiração: convidar os comungantes, para no primeiro domingo próximo, apresentarem-se para uma segunda comunhão; cerimônia, em que dei maior ênfase a este acontecimento. Foi uma maravilha.
Maio de 2006
Minhas atenções se voltaram, este mês, constantemente para Jesus abandono na cruz. De manhã e à noite, beijando o crucifixo, renovo minha entrega incondicional a Ele. Durante o dia, quase nunca falta uma pequena visita d’Ele. Sempre bem recebido, isso me proporciona paz e estímulo para seguir em frente. As reflexões sobre a paixão e morte de Jesus tornam-se preciosas fontes de graças em minha vida espiritual. E é diante do Santíssimo, em adoração, que isso acontece, dobrando a dose do alimento espiritual. Naturalmente, aquela que sempre me acompanha, Maria Santíssima, é sempre lembrada na sua atitude de dor e desolação.
Junho de 2006
Estou tratando dos dentes. Eu me estendo na cadeira, lembrando de Jesus, estendido na cruz. Como Ele, me ofereço ao Pai, disposto a obedecer. Ele, aos carrascos. Eu, ao médico. Vem à mente, a diferença, quase desmedida dos tormentos. Os tormentos dEle e os meus pequeníssimos incômodos. Uno-me aos dEle e me enriqueço com os dEle, para a salvação das almas. Enterneço-me ao ver, que Ele sofreu tanto por mim e em meu lugar, para dessa forma me poupar. Outra forma de descobrir: Jesus crucificado é aceitar as contínuas limitações, principalmente, quando já está se tornando um tanto idoso! Saio apressado. Entro no carro. Abro a garagem. De repente me lembro de ter esquecido tal objeto indispensável. Tenho que voltar. Abrir a porta já trancada, atravessar os corredores, subir as escadas e o tempo passa. Outro dia, levei mais de um dia para achar meus óculos, que inadvertidamente esqueci no quarto do superior. No início estas coisas me aborreciam. Agora, Jesus crucificado suaviza tudo. (Continua)
 
 

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