DIÁRIO DO P. ANTONIO BORGES DE SOUZA - II
Seg, 04 de Junho de 2012 22:34
 altNota: Estamos publicando a segunda e última parte do "diário do Pe. Antonio Borges de Souza" encontrado no meio de seus papeis após a morte, quando caiu de costas na escada da igreja que ele mesmo construiu, fraturando o crânio. Leia tambem esta segunda parte, como meditação e estímulo para todos. A primeira parte foi publicada. Veja na página inicial, no menu com o título "Redentoristas". 

Agosto de 2006
Deus, a luz da unidade. me acompanha, me inspira, me guia. Ele está presente, de manhã, na oração, na meditação, nas pregações, no atendimento às confissões. Não é cem por cento o resultado prático, obrigando-me a sempre recomeçar. De vez em quando, um ato mais generoso: alguém me deu, maldosamente, um prejuizo de mais de mil reais, que me faria falta no andamento das obras. Minha vontade inicial era desejar ao culpado um castigo. Mas, não!... Com a graça de Deus, desejei, rezei, durante vários dias, implorando a misericórdia, a benção e o perdão de Deus, para ele.
 
Setembro de 2006
 
A Palavra de Vida do mês, explica: “Sede bondosos...”. Ser bom é querer o bem do outro... Chegando de uma viagem, distribuí bombons que ganhei (estava com vontade de devorá-los!) para todas as empregadas domésticas, com muita amabilidade. Na Igreja, atendendo o povo, quer seja no confessionário, quer seja fora, dando bênçãos e outras coisas, me esforço para fazê-lo com a máxima bondade, lembrando-me de Jesus, em meio aos doentes e pobres. E também do Pe. Pelágio, que era tão bom e solícito que conquistou todo o sertão. Os seus contemporâneos lembram-se disto e o elogiam! Sede compassivos, perdoando-vos mutuamente... Sucedeu-me receber algum desgosto de alguém. Imediatamente, procurei, interiormente desculpá-lo e perdoar esquecendo-me de tudo e acompanhando-o com minhas orações. A tentação do preconceito encontrou boa resistência com a Palavra de Vida, praticada neste mês. Que a nossa união com esta Palavra me ajude na conquista constante da verdadeira caridade.
  Outubro de 2006
 “Dar um copo de água...” diz o Evangelho. Estou voltando da capela, onde diante do SS. Sacramento, meditei sobre esta Palavra. Eu vi que, o que me ocupa mais são os meus encargos de fazer da Igreja do SS. Redentor, que promove a glorificação deste servo de Deus, uma réplica do que Ele foi: um homem de Deus, totalmente entregue ao bem do próximo, especialmente aos mais necessitados e abandonados. Por isso, temos o projeto e nele já estamos empenhados, o que toma a maior parte de meu tempo, de construir um Centro de recuperação de meninas em situação de risco e o Convento das Irmãs, especializadas neste setor, que aqui ja se encontram, morando em uma casa alugada. Firmei um propósito com Jesus, dizendo que todo o meu empenho e esforço sejam “dar um copo de água às minhas Irmãs”, refletindo em “ser” o amor junto a cada proximo que encontro.
 
Fevereiro de 2007
Como um relâmpago de luz, caiu na terra a Palavra deste mês. Foi assunto de várias meditações minhas e pregações. Procurei deixar-me guiar pela trajetória da vontade de Deus. Descobri-la e fazer cumpri-la, foi objeto de muitas e fervorosas orações. Ao despertar-me de manhã, ao som do despertador, me arrancava imediatamente da cama e rezava uma “AVE MARIA”, pedindo à Maria, que me levasse pela mão, fazendo-me trilhar somente pela trajetória da vontade de Deus. Descobri uma coisa: amo em geral a todos e procuro ser bom e amável. Isso, com os olhos em Maria e por ela impulsionado. Para mim, já com os meus 85 anos, a morte não é mais para se temer! E, sim, um desejável encontro com Deus, infinitamente amável e de inesgotável misericórdia. Recebi as notícias da encontro nacional dos religiosos e consagrados, a que, infelizmente, não pude comparecer. Foi um banho de luz e de graça. Deleitei-me com as impressões e feliz resultado. Caíram na minha alma os frutos de unidade, nela contidos. Viver o ideal da comunhão, dentro das circunstâncias, em que me encontro, faz parte da essência da minha vida.
 
Março de 2007
A Palavra de vida lançou uma luz bem forte na minha alma. Sob o peso de minhas fraquezas, incapacidade, carregando o peso das obras do Servo de Deus, Padre Pelágio, que pretendemos levar as glórias do altar, esta Palavra, além de luz, veio me trazer conforto, libertação e grandíssima esperança. A minha vida veio de Deus, pertence a Deus, está nas mãos de Deus. As obras de meu empenho também pertencem a Deus. Nada mais acertado: devo confiar cegamente. Não devo enxergar, nem ligar para outras sugestões, resistências, temores, oriundos de minha natureza defeituosa e pecaminosa. De outro lado, esta confiança é bendita, traz alegria, plena realização, jogando-me na comunhão com Deus. Fiz inúmeras jaculatórias, exprimindo confiança, mesmo formando um verdadeiro rosário.
 
Abril de 2007
Meditando um dos salmos do breviário e detendo-me nas palavras: “Feliz de quem pensa nos pobres e fracos”, “O Senhor o liberta de todo o mal”, vi que minha vida, atualmente, é toda ocupada na construção do Convento das Irmãs, com o centro de recuperação, para meninas em situação de risco. Isso trás para mim realização, satisfação; vejo que as paredes estão subindo e o serviço vai para frente. Mas, este amor próprio e egoísmo não podem dominar e absorver a genuína e verdadeira finalidade da obra. O motivo fundamental e exclusivo é o amor de Deus e o socorro aos necessitados, pobres e desamparados. O resto é descartável e indiferente. Firmei-me neste propósito e tomei a resolução concreta, nos meus contatos e trabalhos pastorais, procurar mais os pobres, necessitados e humildes. Também isso é carisma da nossa Congregação, fundada por Santo Afonso. Que Maria e a Unidade ajudem-me a conseguir esta pureza de intenção.
 
Maio de 2007
“Eu estou no meio de vós, como aquele que serve.” Amar quer dizer servir. Devo sair de mim mesmo, desprender-me de toda vontade própria, despir-me de mim mesmo. Obedecer a Deus, obedecer meus superiores, obedecer a todos, de todos ser súdito. Foi assunto freqüente de minhas orações e meditações... Encontrei duas velhinhas, com muita dificuldade para andar. Uma delas me conheceu e pediu: “O senhor me dá carona?”. Eu estava com pressa. Mil coisas pra resolver. O caminho era diferente. Engoli um pouco de saliva e mansamente, mostrando disposição, deixei que as duas entrassem no carro e obedeci. Atravessei boa parte da cidade pra chegar onde moravam. Voltei exultante e satisfeito.
 
Junho de 2007
O grande acontecimento deste mês: a vinda do Papa. Tive a honra e o privilégio de estar presente na Fazenda da Esperança, por ocasião da sua visita. Fui com outros companheiros de Trindade e de Goiânia, como representantes da Pastoral da Sobriedade do Centro Oeste, aqui instalada. Fiquei super-feliz e, para mim, foi uma graça extraordinária. Parecia que o céu tnha tocado com a terra. Deus se deslocou e se colocou entre nós. Exultei e dei infinitas graças a Deus por esta Obra divina, realizada pelo nosso caríssimo irmão e colega, Frei Hans. Voltei mais firme e decidido a viver a espiritualidade de comunhão e a continuar a minúscula e humilde obra similar, que já iniciei, entre os trabalhos da Igreja do Servo de Deus, Padre Pelágio Sauter, verdadeiro Homem de Deus, que durante 50 anos, aqui no Brasil, se dedicou ao serviço dos mais necessitados e abandonados. É contando com Deus, com a sua e nossa Mãe, a Santíssima Virgem Maria, reforçado pela nossa unidade, que irei em frente!
 
Agosto de 2007
“Procurando viver a unidade, meu empenho, minhas reflexões se pautaram pelas palavras: “Somos livres, quando por amor nos colocamos a serviço dos outros, quando nos esquecemos de nós mesmos e estamos atentos às necessitades do próximo. Aquilo que nos torna ecravos é o nosso eu. Pensando sempre nos outros, ou na vontade de Deus, somos livres”(Chiara Lubich). Santo Afonso, nos ensina: “Não só nos conformar com a Vontade de Deus, mas nos identificar com ela”. Nos trabalhos que realizo, procuro empregar todo o esforço para querer só o que Deus quer, como Deus quer, porque Deus quer. Assim, eliminar todo amor próprio. Pelo contrário, colher como louros todo insucesso e dificuldades surgidas. Outro dia, voltei de uma campanha, sem ter obtido o resultado que esperava. Vim agradecendo e louvando a Deus!
 
Dezembro de 2007
Fiz um retiro de cinco dias, terminando com uma confissão geral. E grande foi o meu esforço, animado pela oração, em melhor cumprir a vontade de Deus em tudo, principalmente no trabalho, que diz respeito a mim, no encargo a mim confiado pelos meus superiores na igreja, da qual sou o reitor. Confissões caprichadas. Pregações preparadas. Obras sociais somente com o intuito da gloria de Deus e bem estar das almas. Imbuir, meus passos e ações do amor a Deus e ao proximo. Tirei uns dias, simplificando e arrumando meu quarto, onde já se tinham acumulado coisas supérfluas, fazendo melhor resplandecer a simplicidade e a pobreza de Maria. Isto me fez muito bem, me predispôs para tudo melhorar na vida. Tudo farei para comparecer ao encontró dos religiosos e consagrados no centro nacional dos focolares.
 
Março de 2008
Em janeiro fui de repente, acometido por uma fratura na cabeça do femur da perna direita. Consequência: uma cirurgia. Colhido e podado nas minhas atividades, tive belas oportunidades de me unir a a Jesus crucificado. E o fiz, com grande amor. No hospital me identifiquei com Jesus na cruz, obedecendo em tudo aos carrascos. E eu, aos enfermeiros. Tudo correu sem complicação. Estou tranquilo nas mãos do Pai, que é toda ternura e tudo determina e prevê, com a maxima Sabedoria e inesgotável Misericórdia. Preso em casa, aproveito a oportunidade para me comportar como criança. Estou usando um andador, aprendendo novamente a andar. A Mãe do céu me ensinará, como o fez com o pequeno Menino Deus. A recuperação está sendo rápida, causando muita surpresa nos fisioterapeutas. As obras continuam. Elas são de Deus, não dependem nem precisam de mim. Santa Terezinha, Padroeira das obras, mandou-me os espinhos. Espero, em breve, também as rosas.
 
Junho de 2008
Detido pelo repouso, devido a uma cirurgia no fêmur da perna direita, o tempo foi passando. Não deixei de viver a Palavra. Pelo contrário, as oportunidades eram muitas de me entregar à obediência, paciência, confiança, vontade de Deus. A unidade com todos foi uma força! Já retomei minhas atividades costumeiras. Estou quase completamente recuperado. Percebi as bênçãos, que Deus fez jorrar em tudo. O incidente da operação não foi um obstáculo às minhas atividades, mas estímulo para importantes realizações. Estou contente e animado. Li as revistas, contando notícias da morte de Chiara e dos frutos do seu Movimento no mundo. Isso me empolgou em demasia. Ela já está no céu e, agora, mais perto de mim. Invoco-a constantemente e peço-lhe que me ajude a viver a plena unidade, que ela ensinou; o amor ao crucificado e entrega perfeita a Ele. Mais do que nunca, Deus amor se implantou no fundo de meu coração.
 
Outubro de 2008
A vivência da Palavra do mês de setembro, ofereceu-me muitas luzes. A conclusão é o seguinte: não podemos condenar ninguém; a ninguém podemos excluir do nosso coração. Estão todos eles dentro do Coração de Deus. Deus ama o pior dos pecadores do mundo e até morreu pela sua salvação. Se eu amo a Deus, seria uma incoerência não amá-los e perdoá-los. Deus tem caminhos diferentes para cada um. Num instante e pelo menos na última hora, Ele pode tudo reverter e dele fazer um Serafim. Para desfazer-se do mau juízo, a palavra de S. Francisco ajuda: Ele dizia: “Sou o pior dos pecadores”. O Irmão, seu companheiro, protestou: “Não é verdade, há tantos pecadores piores do que o senhor”. E S. Francisco: “Irmão, se o pior dos pecadores tivesse recebido as graças que eu recebo, seria melhor do que eu!”. Estou tranqüilo. Amo meus confrades e quero todo progresso e bem para eles. São escolhidos de Deus e não lhes faltarão as graças, em tempo oportuno, que os livrarão de todos os defeitos, que penso enxergar...
 
Maio de 2009
A frase bíblica deste mês veio ao encontro de um pensamento, que ultimamente me persegue. Um colega meu, com quem muitas vezes me entretinha e éramos vizinhos de quarto, sentiu-se repentinamente mal. Corri, para dar-lhe alguma assistência e ele me disse: “desta vez, eu vou embarcar.” De fato. Foi levado ao hospital, para pouco depois morrer. Senti um vácuo por este desaparecimento inesperado. Ele já tinha uma boa idade, porém era mais novo do que eu. Daí para frente, a morte está sempre presente em minha mente. Procuro reparar o tempo, pouco aproveitado em minha vida, principalmente com uma grande confiança na Misericórdia Divina. Procuro redobrar o meu amor, esperando que Deus suprirá as minhas falhas. Não tenho medo, e acho que a surpresa de ver e conhecer a Deus vai ser simplesmente inefável. Apego-me muito à Maria Santíssima e São José. Rezo constantemente pelos agonizantes que vão me precedendo.
 
Junho de 2009
Com o desejo de não sair da unidade, embora à distância, como estou, no fundo de Goiás, faço a minha partilha de vida. Deus, a unidade estão sempre na minha vida, com lembrança e esforço constantes no meu dia a dia. Sobretudo, quando atendo ao povo na igreja, há momentos de muito empenho. Sou muito procurado para confissões e bênçãos. Faço-o com toda generosidade e estou sempre pronto para ver os doentes. Tento vincular-me nas orações com todos os necessitados e necessidades, com as almas em geral. Hoje, com a notícia da catástrofe acontecida com o avião francês, que caiu no mar, rezei várias vezes pelas vítimas e famílias enlutadas. Sei que devo pensar mais nos outros, que em mim mesmo. Pedindo graças ou recebendo graças, desejo-as para todos. Caminhemos juntos...!
 
Novembro de 2009
O viver a unidade continua firme e atuante no meu coração. Encontro ocasião propícia para amar profundamente, sobretudo nos contínuos atendimentos de confissão. Para isto, estou sempre disposto. Ultimamente, tomei a resolução de imitar o Servo de Deus, padre Pelágio, empregando o tempo que puder para visitar os doentes. Como eles têm necessidade de nossa assistência! Fico satisfeito, quando fico sabendo que fulano morreu e constato que foi por mim assistido e preparado. Além da Unção, imponho-lhes o escapulário, recomendo e rezo o Terço da Misericórdia, junto dele. Outro dia, descobri uma pobre mulher de mais de 100 anos, ainda lúcida, num cubículo mal cheiroso, imundo. Além de ajudá-la com uma cesta básica, combinei com os vizinhos, que depois de executar uma boa limpeza na casa, eu celebraria lá a Santa Missa e lhes daria a Santa Comunhão. A casa se transformou. Não faltaram flores perfumadas e outros apetrechos complementares. A velha apareceu toda limpinha, roupa nova, como uma rainha, toda alegre como uma jovenzinha! Ela ficou no céu! E para mim, foi muito gratificante!
 
Fevereiro de 2010
O evangelho nos convida a viver plenamente a vontade de Deus. É o que peço constantemente: “Ensinai-me Senhor a cumprir a vossa vontade”. Com isso consegui renovar e atualizar meu compromisso de sempre amar. Principalmente no atendimento às confissões, procuro mais profundamente ver Deus no penitente, imaginando o amor infinito que Deus tem para com ele. O mesmo, nas visitas aos doentes. Numa ausência minha daqui, contrariando meus projetos, atendi um pedido de visitar um doente. Não foi fácil. Dificuldade em conseguir os santos óleos com a Igreja fechada e os responsáveis sumidos. Obstáculo em chegar à casa da doente, um tanto distante. A chuva impertinente e implacável. Conservei-me calmo, amando sempre. Desempenhei todas as cerimônias sagradas sem pressa, com a máxima diligência. Deixei a pobre mulher confortado e bem feliz. 
 
Julho de 2010
“O Reino do céu é ainda semelhante a um comerciante que anda em busca de pérolas finas. Ao achar uma pérola de grande valor, vai, vende tudo o que possui e compra-a”. É o vazio de nós mesmos, para possuir a Deus, sua graça, o céu. Esta Palavra me fez rever tudo o que possuo no quarto e passar para frente tanta coisa inútil e até objetos de estimação. Foi uma boa limpeza que – espero – limpou também meu coração, dando mais espaço para Deus. Outros apegos piores são necessários cortar: o amor próprio, a vontade própria, o egoísmo, a vaidade... Conto com a unidade de vocês.
(Aqui termina o diário do nosso querido e saudoso P. Antonio Borges). Nem bem um ano depois, ele morria em consequencia de uma queda  fatal.
 

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