O DENTE ENCRAVADO
Ter, 25 de Junho de 2013 19:38

 

Na biografia de Santo Afonso há cenas de heroísmo e também de tragicidade cômica. Vejamos uma delas, devidamente autenticada. Foi em 1762, quando não existia nem a palavra anestesia. Santo Afonso, bispo de Santa Ágata, no interior de Nápoles, estava pregando um retiro em sua catedral. No decorrer dos dias, um dente começou a dar problema. Era preciso procurar um dentista. Aconselharam-no a ir a Nápoles, onde havia dentistas famosos. / - Para que ir a Nápoles? Os tira-dentes daqui não têm o mesmo valor que os da capital? Chamem o barbeiro da Rua Santa Clara que tem punhos fortes. O secretário informou: - Temos um aqui perto. Mas é preciso buscá-lo cedinho, porque passa o dia inteiro bêbado. Foram buscá-lo à noite mesmo, o tal Nicodemos, para tê-lo em forma na manhã seguinte.

Chegada a hora o paciente assentou-se no chão em cima de um almofadão. A coragem e a valentia valiam pela anestesia. Felício Verzella, seu secretário, para segurar seus ombros. Mas o santo, tirando um crucifixo do bolso da batina, diz: - Para que imobilizar-me? Que apoio melhor posso ter do que aquele que tanto sofreu por mim? / Cruzando os braços sobre o crucifixo, agüentou calado a extração do dente, sem soltar um ai ou gemido. O experto secretario conseguiu guardar a relíquia e mandou o tabelião Agostinho Ciardullo fazer a notificação. Este lavrou um atestado de autenticidade assinado pelos presentes. / Pelo fim do retiro tiveram que chamar novamente o tal “dentista”. O último dente de Afonso estava cariado e começou a dar problemas. Ele veio. Esta segunda extração foi bem mais penosa e dolorosa. O Tiradentes bufava, suava por todos os poros, firmava o joelho no chão, se retorcia para lá e para cá, enquanto o molar obstinado parecia um carvalho com suas raízes fincadas profundamente nas gengivas do pobre Afonso. / Finalmente, após três tentativas, o barbeiro mostrou o troféu ensangüentado. Enxugando o suor da fronte, recuperando um pouco a cor do rosto, Afonso fez este comentário: - Senhor! Até onde este bendito dente podia agüentar ainda! / Depois balbuciando e sorrindo com a boca torta, estendeu os 12 carlinos para o dentista dizendo: - Mestre Nicodemo, daqui em diante você não pega mais o meu dinheiro. / Quando outros teriam ficado sérios e mesmo enraivados, o santo bispo sabia sorrir e brincar. (Do livro “Afonso fino humorista e brincalhão” do P. Arlindo Tomás CssR)

 

 

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